Domingo (03/09/2023), o Brasil celebra o que seria o octogésimo aniversário de um dos maiores ícones da cultura brasileira, Waly Salomão. O poeta, escritor e letrista, natural de Jequié, na Bahia, deixou uma marca indelével na música, na literatura e nas artes, sendo lembrado por sua inquietude artística. A sua partida, em 2003, devido a um câncer, ainda é sentida profundamente por uma legião de amigos e admiradores, que continuam a reverenciá-lo pelas contribuições à cultura brasileira e por seu ativismo em prol da valorização da identidade cultural do país.
“Acho que o Brasil perdeu, acho eu perdi, acho que o mundo perdeu uma inteligência, uma sensibilidade, uma novidade, incomuns. Meu grande amigo e poeta extraordinário”, disse Maria Bethânia à Agência Brasil, refletindo sobre a ausência de Waly Salomão.
O historiador e jornalista Ricardo Cravo Albin, um pesquisador renomado da Música Popular Brasileira (MPB), compartilhou suas lembranças de amizade com Waly Salomão, enfatizando a sensibilidade e a ampla cultura do artista. Ele descreveu Waly como uma das personalidades mais sensíveis que já conheceu na música popular brasileira.
Uma Trajetória de Versatilidade Artística
Embora tenha se formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1967, Waly Salomão optou por trilhar um caminho distinto ao seu diploma. Na própria universidade, ele mergulhou em sua verdadeira paixão, frequentando a Escola de Teatro entre 1963 e 1964.
Na literatura, Waly Salomão deixou um legado marcante com seu livro “Me Segura qu’eu Vou Dar um Troço”. Escrito enquanto ele estava detido em uma cela do Carandiru, em São Paulo, durante a ditadura militar de 1971, o livro desafiou as convenções e refletiu sua ousadia e compromisso com a expressão artística. O lançamento ocorreu apenas um ano após sua libertação. Em 1997, ele foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura pelo livro de poesia “Algaravias”. Seu último trabalho, “Pescados Vivos”, foi publicado postumamente em 2004.
No universo da música, sua parceria com Jards Macalé gerou diversos sucessos memoráveis, incluindo “Vapor Barato”, que se tornou uma das músicas mais icônicas da carreira da cantora Gal Costa e do grupo O Rappa. A composição “Mal Secreto” também se destacou como parte do lendário show “Fa-Tal” de Gal Costa, e foi gravada posteriormente por Luiz Melodia.
Maria Bethânia, em êxtase, chamou o espetáculo “Fa-Tal” de uma das obras-primas do teatro e da música brasileira, destacando a contribuição fundamental de Waly Salomão.
Uma Mente Criativa Além da Letra
Além de ser letrista, Waly Salomão foi um produtor artístico notável. Nos anos 1990, ele colaborou com a talentosa Cássia Eller em dois álbuns memoráveis: “Veneno AntiMonotonia” (1997) e “Veneno Vivo” (1998). Cássia Eller descreveu o encontro com Waly como uma conexão de identidade artística que se assemelhava a um casamento.
Waly também deixou sua marca nas telas de cinema como ator, interpretando o papel principal no filme “Gregório de Matos” (2003), dirigido por Ana Carolina. O filme retrata a vida do poeta baiano no século XVII, ressaltando a versatilidade artística de Waly.
A Vanguarda do Movimento Tropicalista
Durante a década de 1970, Waly Salomão foi uma figura proeminente no movimento tropicalista, que transcendia diversas formas de arte, como música, poesia, cinema, teatro e artes plásticas. Ele se uniu a lendas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinam, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Os Mutantes e Rogério Duprat, apesar das pressões políticas da época.
Ricardo Cravo Albin enfatizou o papel teórico de Waly no movimento tropicalista, destacando suas teses e escritos que buscavam a originalidade, a inovação e a valorização das raízes culturais brasileiras.
Um Defensor da Cultura
A paixão de Waly Salomão pela cultura o levou a ocupar cargos na administração pública. Ele foi presidente da Fundação Gregório de Matos e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, no primeiro governo de Lula, Waly atuou como secretário nacional do Livro e Leitura, propondo audaciosamente a inclusão do livro na cesta básica brasileira.
Um Adeus Prematuro, um Legado Duradouro
“Saiu de cena muitíssimo cedo. Ele poderia ter continuado muito mais. O destino, no entanto, nos privou de ter o convívio de Waly Salomão. Viveu muito pouco, mas o pouco que viveu, marcou”, lamentou o pesquisador Ricardo Cravo Albin.
Maria Bethânia, emocionada, concluiu: “Acho que o Brasil deve uma reverência ao Waly, uma reverência nobre, bonita e ímpar, porque com ele não dava para ter igual pra ninguém. Ele era único no seu querer, no seu bem-querer, no seu mal-querer, na sua língua afiada, na sua inteligência, na sua beleza.”
Os trabalhos e a amizade com Waly Salomão continuam a ecoar na memória e no coração de Maria Bethânia e de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecer esse poeta excepcional.
*Com informações da Agência Brasil.


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