Premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o fotógrafo documental baiano André Fernandes apresenta o ensaio fotográfico ‘Ounjẹ Òrìṣà: Comida de Orixá (2025)’ no circuito internacional de artes, com exposição em cartaz na cidade de Assunção, no Paraguai. A mostra ocorre no Instituto Guimarães Rosa e amplia o alcance internacional do trabalho do artista, já reconhecido pela série Orixás (2014).
A nova produção reúne dezesseis fotografias inéditas, que exploram os significados históricos, culturais e religiosos da culinária do Candomblé, tradição de matriz africana presente no Brasil. Os registros destacam alimentos, objetos rituais e símbolos associados aos Orixás, conectando práticas religiosas ao cotidiano.
A exposição homônima atraiu público expressivo logo na abertura, com 1,3 mil visitantes em uma única noite, consolidando-se como destaque cultural e ampliando a circulação do debate sobre herança africana em países da América Latina.
Nova série amplia abordagem sobre religiosidade e cultura afro-brasileira
O ensaio ‘Ounjẹ Òrìṣà’ dialoga diretamente com a série Orixás (2014), reconhecida internacionalmente, e aprofunda o olhar sobre os ritos e saberes da diáspora africana. As imagens articulam elementos do sagrado com aspectos do cotidiano, enfatizando o papel da comida como forma de comunicação espiritual.
Segundo André Fernandes, os alimentos destinados aos Orixás extrapolam a função nutricional e assumem centralidade ritual. Para o fotógrafo, cozinhar nos terreiros representa um ato simbólico, no qual fé, memória e ancestralidade se manifestam por meio do preparo dos alimentos.
A série estabelece uma narrativa visual que associa ingredientes, objetos e símbolos religiosos, evidenciando a permanência dessas práticas no tempo e sua relevância para a identidade cultural brasileira.
Elementos da culinária e representação dos Orixás nas fotografias
As obras apresentam ingredientes típicos da culinária afro-brasileira, como dendê, milho, feijão, inhame e coco, combinados com guias, ferramentas, búzios, folhas, metais e conchas. Cada composição foi pensada para representar um Orixá específico, respeitando fundamentos religiosos.
Entre as entidades retratadas estão Exu, Ogum, Oxóssi, Logunedé, Obaluaê, Ossain, Oxumarê, Nanã, Oxum, Obá, Ewá, Iansã, Yemanjá, Xangô, Oxalá e os Ibejis. A identidade de cada Orixá é construída visualmente a partir dos elementos simbólicos associados à sua tradição.
O fotógrafo destaca que o entendimento aprofundado desses rituais resulta de anos de convivência e registros no Terreiro Ilê Axé Alaketu, na Bahia, experiência que contribuiu para o reconhecimento internacional obtido em (2024) no Concurso Internacional de Arte para Artistas Minoritários, promovido pela ONU.
Produção, curadoria e circulação internacional da mostra
A produção dos alimentos retratados no ensaio foi realizada por Tata ria Nkisi Douglas Santana, responsável por executar os preparos presentes em cada fotografia. Segundo André Fernandes, ingredientes, modos de preparo e utensílios seguem saberes transmitidos entre gerações dentro do Candomblé.
A curadoria da exposição é assinada por Mai Katz, que ressalta que a proposta da série é evidenciar o alimento como fundamento religioso, frequentemente alvo de preconceito e intolerância. Para a curadora, muitos alimentos presentes no cotidiano têm origem africana e nos terreiros, ainda que essa herança seja pouco reconhecida.
A exposição ‘Candomblé’ é uma realização do Instituto Guimarães Rosa Asunción (IGR), com patrocínio da Itaipu Binacional, Fundação Itaú e Eurofarma, reforçando a inserção da obra de André Fernandes no circuito internacional de artes visuais.



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